Com alguma sorte, estaremos livres de Lula em:

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quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Head of State

Há seis meses ninguém previa a chegada de um negro a Casa Branca. Errado. Cris Rock já sabia de tudo. Há muito tempo. Em 2003, o comediante escreveu, dirigiu e protagonizou o filme Um Pobretão na Casa Branca (Head of State), que conta uma história muito parecida com a que se sucedeu nesses últimos meses nos EUA.

No filme, um carismático vereador de Washington, Mays Gilliam, sem nenhuma chance evidente de ganhar uma corrida presidencial, é escolhido como candidato à presindência, como estratégia do partido para atrair o voto das minorias, e dar, nas próximas eleições de 2008, a vitória para um figurão do partido, o senador Bill Arnot. Porém, ao contrário das expectativas do senador, o pobre vereador ganha uma popularidade nunca antes vista e é eleito presidente dos Estados Unidos da América.

Tudo muito parecido. De um lado, um fenômeno eleitoral. De outro, velhos figurões do partido democrata, no caso, os Clinton, numa torcida mesquinha para seu fracasso, na esperança de uma vitória futura, em 2012.

Contudo, há muito mais diferenças do que semelhanças entre o personagem de Cris Rock e o senador Barack Obama. Mays Gilliam era pobre e sem educação. Nunca teve oportunidade nenhuma na vida e sempre falava com sinceridade o que realmente pensava sobre os temas nos debates. Obama nasceu em uma boa família, teve sempre a melhor educação, é formado em Direito em Havard e nunca fala o que pensa, muda de discurso de acordo com a platéia.

Mays Gilliam tinha orgulho de ser um negro americano e defendia sua raça caricaturalmente. Obama, por sua vez, não pertence a essa ela. Não é um autêntico afro-americano. Sempre fugiu do assunto da raça, mas teve, durante toda a campanha, ela como salvaguarda para todas as acusações. Seus detratores eram automaticamente acusados de racismo, no exato momento em que levantassem o dedo contra ele.

Mas isso não interessa mais, a maior e mais importante diferença entre eles é: Mays Gilliam era engraçado, Obama não tem graça nenhuma.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Horário eleitoral gratuito... no Orkut

Com a mundança do comportamento e das formas de relacionamento, mudou-se também a forma de se fazer política. Não é difícil encontrar na caixa de e-mails correntes defendendo um ou outro político, e tópicos em comunidades de discussões postados por militantes de um ou outro grupo.

Hoje mesmo recebi em minha página de recados no Orkut duas mensagens. Uma acusando João Castelo de homofobia e outra "acusando" o candidato Flávio Dino de ter firmado aliança com José Sarney.

Vamos lá! Vamos lá! Quem mandar mais scraps ganha a eleição!

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Quem sai pior na foto

O segundo turno em São Luís mal começou e os jornais da cidade já começam a demonstrar discretamente suas preferências. Um caso que exemplifica bem isso são as fotos dos candidatos publicadas nas edições diárias dos jornais. A edição de ontem de O Estado do Maranhão é uma boa mostra da tentativa burlesca dos jornais de queimarem o filme de quem eles não apóiam.

Na capa, temos uma bela foto de Flávio Dino abraçando eleitores e uma foto de Castelo mal encarado, apontando para cima.


Na segunda página, temos a mesma bela foto (colorida) de Flávio Dino, mostrando seu lado mais meigo e fraterno, e na terceira página temos uma foto (preto e branco) de Castelo, ao lado de um de seus novos apoios, Cléber Verde, novamente com cara de mal. E como se não bastasse, Cléber Verde também aparece com cara de quem não dormiu direito.

Assim fica fácil saber quem está apoiando quem.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Palin Goes On


Como previu Olavo de Carvalho em seu programa de rádio, Sarah Palin será a vice presidente de McCain. Não perdeu, claro, a oportunidade de zombar no último programa: "esses outros comentaristas políticos do Brasil nunca tinham ouvido falar de Sarah Palin". Ele tem razão. Mas o melhor é que, finalmente, desfez-se a amarga impressão que eu tinha quando casualmente assistia algum jornal à noite: a de que, quem quer que acompanhasse as eleições americanas apenas através da mídia tupiniquim, teria a impressão de que Obama fazia campanha presidencial contra ninguém, ou melhor, contra um suposto sentimento personificado. Como se Obama apenas precisasse "vencer o preconceito americano". Mas enfim a mídia brasileira descobriu Sarah Palin, descobriu que será vice de um tal McCain.

Mal descobriram a fotogênica moça, que mesmo aos 44 anos merece o predicado de moça, e já começou a enxurrada de bobagens e meias verdades, repercutidas no Brasil diretamente da grande mídia americana. Um jornal ontem a noite anunciava que a campanha de McCain tentará convencer os eleitores que mesmo Sara Palin tem mais experiência política que Obama. Ora, convencer? Assim, como se a campanha fosse usar meramente a retórica? Custava aos grandes jornalistas que fizeram a matéria, evitando essa abordagem oblíqua de "fulano disse que disse", recorrer aos fatos e mostrar a carreira política de Palin e Obama? Se o problema era o tempo, que tal dizer em uma curta frase: "Palin tem 16 anos de carreira política, Obama tem 3".

Dando sequência a pataquada, a matéria propaga o que a imprensa americana e o partido democrata desejou ingenuamente que fosse um escândalo no sentido puro da palavra, a gravidez da filha de 17 anos de Sarah Palin. Não sei como o público brasileiro recebe essa história da gravidez da filha de Palin, mas isso não importa neste texto, e importa menos ainda para as eleições presidenciais americanas. Passemos para a análise da repercussão da história nos EUA.

Hugh Hewitt (famoso comentarista político americano) afirmou na segunda-feira, em seu programa de rádio diário, que as "denúncias" sobre o caso partiram inicialmente de um site linkado ao site oficial da candidatura do Obama. Tentei confirmar a informação, mas ela já está tão difundida pela internet que me parece impossível saber agora de onde surgiu. Mas o que nos importa aqui é que, sendo ou não a divulgação da gravidez da filha de Palin fruto da campanha de Obama, ela está saindo como um belo de um tiro de canhão no pé democrata. Sim, parece ser ruim para a imagem de um político conservador o fato de sua filha menor de idade estar grávida, mas os resultados estão ao avesso do esperado. Desde que a história vazou só o que ouvi nos programas de rádio americanos são ouvintes conservadores dizendo-se maravilhados com o fato de que filha de Palin vai se casar com o namorado. Sempre comentam o exemplo de educação e responsabilidade que está sendo dado aos jovens dos EUA. Mais importante ainda: comentam como pela segunda vez Palin prova, com exemplo de vida, o quanto é pro-life.

Mas o mais interessante nessa história é como os efeitos da gravidez da filha de Palin foram inversos aos esperados pelos "liberals". Na visão caricatural do esquerdista americano (e brasileiro), a notícia provocou um escândalo contra Palin, um xilique das mães e pais de família americanos, que agora declaram com horror como a vice de McCain é hipócrita por dizer-se conservadora e a favor do sexo apenas após o casamento. Mas nota-se com clareza que este pensamento pertence majoritariamente aos "looney liberals" e seu ódio costumeiro. Quando sairem do frenesi espumante, e cessarem o efeito de seus múltiplos orgasmos sombrios, vão olhar em volta e notar que os conservadores americanos demonstraram-se compreensivos com as circunstâncias da vida, pois compreendem as dificuldade que enfrentam os pais hodiernos.

O quase uníssono da convenção Republicana em favor de Palin era bonito de se ver. A popularidade da moça cresce vertiginosamente, e deve alcançar seu pico em dezembro, quando a mídia explorar o nascimento de sua netinha.

A filha de Palin engravidou aos 17. Ato irresponsável. Mas tanto ela quanto seu namorado assumiram o erro, maduramente assumiram o filho e o casamento. A lição que fica é que os conservadores podem ser rígidos moralmente, podem condenar vividamente o "vitium", mas acima de tudo admiram aqueles capazes de assumirem a responsabilidade que lhes cabe.

sábado, 26 de julho de 2008

Ponto final

Parece-me que ganhou grande repercusão a declaração do prefeito Tadeu Palácio de que a bancada parlamentar maranhense na Câmara dos Deputados não trabalhou pela capital. Com a falta de um debate político embasado em nossas eleições, é comum que acusações soltas ao vento ganhem mais importância do que deveriam. Para acabar de vez com a discussão, veja com seus os próprios olhos os dados dos deputados federais maranhenses que concorrem à prefeitura de São Luís e confira quem está com a razão e quem trabalhou mais.


Clique aqui e analise a atuação parlamentar de Flávio Dino.






Clique aqui e analise a atuação parlamentar de Waldir Maranhão.






Clique aqui e analise a atuação parlamentar de Gastão Vieira.

O presidente da guerra

Em reportagem especial para a Newsweek da semana passada, Fareed Zakaria, editor da publicação, desmitifica a imagem que Bush criou de si mesmo desde a invasão ao Afeganistão, a de presidente da guerra: "Desde 1945, apenas um presidente não envolveu tropas americanas em combates".

Segundo ele, envolvimentos em conflitos estrangeiros, onde há interesses em jogo, sempre foram comuns em países considerados superpotências de sua época. Assim foi com a Inglaterra, no século XIX e início o século XX, e assim está sendo com os EUA, desde o fim da Segunda Guerra.

Zakaria ainda ironiza a guerra contra o terrorismo. Diz que, agora, está mais parecida com uma cold war, em referência à Guerra Fria, do que com uma hot war. Isso se deve ao esforço conjunto que vários países fizeram contra o terrorismo desde o 11 de setembro e ao constante declinío dos grupos extremistas islâmicos desde a época, que hoje, por não terem apelo às massas, sofrem repúdio da maior parte do mundo mulçumano.

Argumentos como esses reforçam a tese de que manifestações "fora Bush" no mundo todo, como as que aconteceram no Brasil com a sua vinda, são mais reflexo da imagem que o próprio Bush criou de si mesmo e da intensa exploração da mídia sobre os conflitos em que se envolveu em seu mandato, do que propriamente de seus procedimentos na presidência dos EUA.

O liberal

Da série "Grandes liberais da História"

quinta-feira, 24 de julho de 2008

domingo, 13 de julho de 2008

As campanhas começaram

As campanhas municipais começaram. E com elas, a poluição visual e sonora em São Luis. Carros de som percorrem toda a cidade e fotos dos candidatos são espalhados em cartazes. Você não sabe o quanto foi desagradável realizar minha caminhada dominical pela Avenida Litorânea ao som das músicas de campanha de Clodomir Paz. Eram dezenas de carros de som. Dezenas, não. Centenas. Milhares. Vinham um atrás do outro. A música não parava nunca. Confesso que em meio aquela lavagem cerebral quase cogitei em votar nele.

Bebendo uma água-de-côco para descansar, já de saco cheio daquilo, subo a ladeira a caminho de casa, quando, de repente, vejo quatro ônibus "Clodomir 12", cheios de vermelhinhos.

Multidão descia em direção à praia. Uns reclamavam do sol que teriam que pegar. Outros discutiam o que fariam após o "expediente". Alguns dos uniformizados vestiam uma camisa vermelha, com gola amarela, estampando o número 12 e portando bandeiras vermelhas com o número do partido. Outros vestiam uma camisa vermelha onde tinha escrito: "Todo poder aos núcleos de base".

Os ônibus estavam estacionados no alto da ladeira e a multidão descia a pé. Umas cem pessoas. Nenhum dos ônibus vinha lotado. Enquanto eles desciam, passavam, ao mesmo tempo, três carros-de-som de João Castelo tocando as músicas de campanha, que são ainda piores que as de Clodomir Paz. Os vermelhinhos vaiaram. E com razão. O motorista do carro-de-som, demonstrando todo o seu fair play, desligou a música.

Não sei até onde ações como essa refletem positivamente na candidatura de alguém. Com certeza fixam a imagem do candidato, mas não decidem votos. Votos são decididos por uma série de fatores, que incluem: simpatia pelo candidato, avaliação das propostas, clima político, apoios e vantagens pessoais. Pelo menos os eleitores ficam por horas com a música na cabeça. Mas se eu fosse votar pelas canções, não votaria.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Brain-Dead Liberals

Cinturão Vermelho. Quero assistir esse filme. Não porque fala sobre jiu jitsu ou porque tem brasileiros no elenco. Estou me lixando para Rodrigo Santoro. O que me fez querer vê-lo foi simplesmente um artigo escrito por David Mamet, diretor do filme, em março para o Village Voice. O título é Why I Am No Longer a 'Brain-Dead Liberal'.

No artigo, ele fala como as idéias da velha esquerda não correspondem mais a realidade e, cintando Keynes, explica, "when the facts change, I change my opinion".

Assistirei o filme não porque acho que lá verei uma exaltação ao capital privado ou o triunfo do individualismo. O filme, com certeza, não tem nada a ver com o artigo ou com o pensamento político dele. Quem gosta de politizar a vida são justamente os Brain-Dead Liberals.

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Clique aqui para ler o artigo de David Mamet.

P.S.: Liberal, no inglês dos EUA, equivale a esquerdista, em português brasileiro, não a liberal, como podem alegar alguns conhecedores do ingrês.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Diálogos de 1968

Os jovens brasileiros querem o fim da ditadura militar, os tchecos, um socialismo com rosto humano, e quanto a vocês, meus caros franceses?

― “Seja realista. Exija o impossível”.
― Nós sabemos exatamente o queremos.
― Queremos o impossível.

Pois não, peguem a chave número 7 com a secretária. Chegando no corredor, abram a segunda porta à esquerda, depois atravessem a sala até o fim e passem pela porta do fundo, ela já está aberta. O impossível está guardado bem ali, fiquem à vontade.

― Queremos o impossível sem intermediações.
― Queremos o impossível e três copos de água aqui mesmo.
― Exigimos um mundo sem portas.

Sem portas? Isso pode demorar um pouco. Uns dois ou três dias. Para adiantar, vou já passar a ordem para a minha equipe. Será um pouco complicado, mas é sim possível.

― Queremos o impossível.
― Queremos o impossível e um mundo sem ordens ou subordinados.
― Exigimos que o mundo de ontem tivesse sido sem portas.

Assim vocês me deixam numa situação difícil… Estou tentando cooperar aqui. Vejam bem, que tal eu dar exatamente nada para vocês? Nada do impossível, nem 50 % do impossível. Em compensação, vocês entram para a história como “O Movimento”, aquele que exigiu tudo, um mundo radicalmente novo, sem acordos ou meias medias. A água chegou, deixem-me servi-los.

― A proposta soa muito bem.
― Espera. Exigimos ainda o direito de pichar frases de efeito pela cidade.
― Quero apanhar polícia.

Isso pode ser arranjado. Vou adorar ver as fotos.

― Acordo selado. Foi ótimo negociar com o senhor.
― Bela a mobília desta sala.
― Onde você comprou o seu terno?

É segredo. OK, rapazes, os policiais Juan e Marc lhe acompanharão até saída. Se eles estiverem dispostos, quem sabe não começam alguma confusão lá mesmo? Adoraria que todos os jovens fossem razoáveis como vocês. Eu estaria livre de muitos problemas. Abraços.


“A impressão é de que 68 pode ter sido planejado para servir como uma espécie de ponto de referência histórico”.
Eric Hobsbawm (Especial do Estadão, 11/05)

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Do blog ângulo

sexta-feira, 30 de maio de 2008

God save Lula!


Um garoto de voz esperta chega em casa e fala para sua mãe que finalmente poderá cursar uma faculdade. Havia ganho uma bolsa pelo PROUNI e realizaria seu grande sonho de ter um diploma universitário. Sua mãe, então, com uma voz de sofrida, não se segura de emoção e finaliza sua fala com um sonoro: "Deus abençoe Lula!".

Essa é uma das propagandas de rádio do Partido dos Trabalhadores que começaram a ser veiculada recentemente em cadeia nacional. Ela demonstra perfeitamente o personalismo que Governo Federal vem atingindo nestes últimos tempos. Lula vira um mito do povo, ao ponto de as propagandas do governo refletirem isso, com mães de família pedirem, em alto e bom som, que Deus o abençoe.

Métodos parecidos eram usados nos governos autoritários da primeira metade o século XX. Lula imita os fascistas. Em sua propaganda, pede que as pessoas rezem por ele, que o abençoem. E é assim que nossa democracia de banana deixa devez de ser uma democracia. Ao mesmo tempo em que se mitifica a figura do atual presidente, dá a ele mais credibilidade para aqueles que apoirá nas próximas eleições, perpetuando-se indefinidamente no poder.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Jequice Federal


"Nóis é jeca mais é FEDERAL". Esta frase passou a ser o slogan de Edigar Mão Branca desde 2006, quando foi eleito Deputado Federal pela Bahia. Depois da eleição, sua vida, vá lá!, artística passou a se cofundir muito com sua vida política. Em seu site oficial, Mão Branca se define como "Deputado Federal, cantador, poeta e vaqueiro". O carro em que anda foi pintado de verde, provavelmente em alusão a seu partido, o PV, e estampado com uma foto sua de terno, gravata e chapéu de couro, ao lado da frase "o forró federal".

No início do mandato, o deputado causou polêmica ao ter sua entrada na Câmara barrada devido a seu tradicional e inseparável chapéu de couro. Mão Branca alegou que não podia se desfazer do chapéu porque era vaqueiro, isso fazia parte de usa cultura. Propôs logo em seguida o Projeto de Lei 782/2007 que tornará facultativo o uso de chapéu em estabelecimentos públicos e privados. "Pior que usar chapéu é viver dando chapéu nos outros", diz ele.

Mão Branca é um retrato da "criatividade" da política brasileira. Para reivindicar, por exemplo, melhores estradas, ele se utiliza de seu dotes de poeta para sensibilizar as autoridades competentes:

Governador, faça essa estrada de Lapa a Santa Maria

Tem uma coisas no mundo
Se eu pudesse eu queria
Uma fazenda de gado
E uma mulona ruzia
Sê governo um dia só
Do meu estado, Bahia
Pra findar a palhaçada
E consertar a estrada
De Lapa a Santa Maria


Clicando aqui você pode analisar o desempenho do deputado Mão Branca como deputado. E clicando aqui e aqui você pode conferir seu desempenho como forrozeiro.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Haddad, o Lênin engomadinho da UnB

Do blog de Reinaldo Azevedo

Os invasores da reitoria da Universidade de Brasília começam a desocupar o prédio amanhã. Não era pra menos. Roberto Aguiar, o reitor temporário, assinou um documento se comprometendo a atender a todas as reivindicações da turma. Logo, o nome do documento é rendição, já que o “acordo” foi feito com Paris ocupada, se é que você me entendem.

Fernando Haddad, saudado aqui e ali como um grande ministro da educação, coisa de que discordo de modo absoluto, pode ter dado à luz a forma mais chucra e rasteira de movimento estudantil. A causa original da mobilização era boa? Era, sim. O seu desdobramento pode ser desastroso para as universidades federais — de fato, para as universidades públicas.

Só não está resolvida a questão da paridade dos votos de alunos, funcionários e professores na já indecente eleição direta para reitor. É a LDB (Lei de Diretrizes e Bases) que estabelece que “os docentes ocuparão 70% dos assentos em cada órgão colegiado e comissão, inclusive nos que tratarem da elaboração e modificações (...) da escolha de dirigentes”. A UnB não tem poder legal para mudar a regra

Mas o “socialista” Haddad — assim ele se diz em livro — já apresentou a solução: a universidade faria consulta informal paritária, e os professores acatariam as escolhas. Entenderam o modelo? Os professores seriam bonecos de mamulengo das facções radicalizadas dos estudantes — que são as que se mobilizam para esse tipo de coisa.

A solução tem a cara de Haddad, um esquerdista de fala mansa, com ar ideologicamente asseado. Embora ela possa escrever numa linguagem herbívora, as suas intenções são carnívoras. Num livro publicado há menos de quatro anos — Trabalho e Linguagem – Para a Renovação do Socialismo — é capaz de afirmar coisas como (os destaques foram publicados na revista Época): “O sistema soviético nada tinha de reacionário. Trata-se de uma manifestação absolutamente moderna frente à expansão do império do capital”. Fazendo um pastiche vagabundo de Marx, sentencia sobre o passado, o presente e o futuro: “Sob o capital, os vermes do passado, por vezes prenhes de falsas promessas, e os germes de um futuro que não vinga concorrem para convalidar o presente, enredado numa eterna reprodução ampliada de si mesmo, e que, ao se tornar finalmente onipresente, pretende arrogantemente anular a própria história. Esse é o desafio que se põe aos socialistas. A tarefa, 150 anos atrás, parecia bem mais fácil”.

É pouco? Sabem o MST, este que está aí, ameaçando a produção com táticas terroristas? Haddad também pensa algo a respeito da turma: “Trata-se de um movimento que mudou completamente a pauta clássica de reivindicações: ele não reclama maior remuneração ou menor jornada, nem tampouco favores do Estado. (...) Revolucionariamente, o MST quer crédito, apoio técnico e autonomia. (...) São iniciativas dessa natureza, progressivas em todas as dimensões da vida social, que devem sempre chamar a atenção dos socialistas e lhes servir de inspiração para sua conduta política”.

Qual e a importância dos revolucionários de gabinete, como Haddad, com seu arzinho estouvado de filho das “classes superiores”? Fora do poder, nenhuma. Imaginem se alguém o levaria a sério como teórico. No poder, ele dá curso a maluquices como esta da UnB. A cobrança, justa, para que o Timothy Mulholland renunciasse degenerou na entrega do comando da UnB à militância mais atrasada, mais bronca, mais delirante.

terça-feira, 25 de março de 2008

Já sinto o cheiro do enxofre


Esse nosso jornalismo maranhense é uma comédia. Uma graça só. Leia abaixo uma matéria do portal da Mirante sobre a visita de Hugo Chávez a nosso humilde Estado.

Equipe de Hugo Chavez já está no Maranhão

SÃO LUÍS - A equipe precursora do ditador e presidente da Venezuela (nossa! quantos títulos!), Hugo Chavez (sic), já está no Maranhão. O governador Jackson Lago (PDT) confirmou ao blog (que blog?) a visita de Chavez ao estado na próxima quinta-feira (27).

O avião presidencial do governo venezuelano desembarou (
sic) final de semana na capital maranhense com centenas (!)de agentes (sic, que baita avião, hein?). Decolou de volta do Aeroporto Marechal Cunha Machado por volta das 12h30 de hoje (segunda-feira, 24). Os agentes estão hospedados no hotel Brisa Mar (Ponta d'Areia). Chavez estaria trazendo de seu país, como é comum neste tipo de visita, toda a alimentação e a água que vai beber (sic). Ele teme ser envenenado por agentes da CIA, o serviço secreto americano.

"O objetivo da visita é fazermos convênios na área da saúde, educação e econômica (
sic). O Maranhão procura se relacionar para obter condições de promover seu desenvolvimento econômico", explicou o pedetista ao blog, depois de solenidade no final da manhã com o ministro Geddel Vieira Lima (Integração Nacional).

O estranho é que o governador, vice-presidente nacional do PDT, procure em países de outras línguas métodos educacionais para combater o analfabetismo, quando seu partido tem especialistas no assunto como o senador Cristovam Buarque (DF). Foi ele quem criou o bolsa-escola.


P.S:As partes em negrito são os trechos humorísticos da matéria. Se quiser ler mais textos engraçados como esse, entre no blog do Décio Sá.

"Sarney odeia Hugo Chávez? Vive colocando empecilhos na entrada da Venezuela no Mercosul? Gasta minutos e mais minutos de discursos no Senado para explicar como a democracia na Venezuela e na América Latina está ruindo graças a ele? hummm... o inimigo do meu inimigo é meu... Peraí... que tal trazermos Hugo Chávez pra cá?". Deve ter sido isso que passou pela engenhosa mente que idealizou da visita del dictador ao Maranhão.

Trazer Chávez para assinar acordos de cooperação na área de educação. Que piada. Não sei qual das duas educações é a pior: a venezuelana ou a maranhense. Lá pelo menos eles têm livros. Materiais didáticos enviesados cheios de proselitismo financiados pela Odebretch e pelos petrodólares. Livros péssimos, é claro. Então? O que diabos Jackson quer fazer? Implantar a educação bolivariana no Maranhão? Ou seria só irritar Sarney? Sinceramente, espero que só irritar Sarney seja a resposta correta.

Acordos na área econômica devem significar vultuosas trocas comerciais entre as duas pujantes economias. A Venezuela deve nos exportar... deixa eu ver... seu petróleo, e nos exportaremos a eles... nós... Não, o minério de ferro é do Pará... Já sei. Exportaremos nossos tacapes e flechas.

No Maranhão, Chávez receberá a visita de militantes do MST, que, como virou costume, acabou de invadir mais uma instalação da Vale. João Pedro Stédile, para quem não sabe, líder intelequitual do Movimento Sem Terra, virá ao Maranhão se encontrar com Chávez. MEU DEUS! Isso aqui vai virar um inferno. Um inferno vermelho. Alguém, por favor, nos socorra. Mamãe, quero sair daqui! Alguém nos acuda! Quem quer que seja. Sarney, tá bom, a "libertação" foi bacana, mas isso já tá ficando demais. Ajude-nos. Bush, help us.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Diogo, O Terrível


Em fevereiro deste ano, o português João Pereira Coutinho (não conhece? clique aqui e aqui) entrevistou O Colunista da Veja, Diogo Mainardi. Com o humor que lhes é característico, os dois falaram de Lula, Europa, Literatura e, especialmente, da aversão que os brasileiros, em geral, os brasileiros políticos, têm do jornalismo crítico, aguerrido e vigilante. Para não me estender muito, essa aversão, comum nos centros universitários, é fruto de uma mentalidade provinciana, pouco democrática, não acostumada com a crítica e não acostumada com aquilo que nós mais deveríamos defender: a liberdade de expressão e de escolha. Enfim, sem mais delongas, a entrevista.

É um dos meus desportos favoritos: chegar ao Brasil e falar, em tom blasé, de Diogo Mainardi. "Você leu a coluna dele na Veja? Muito boa", digo eu. O meu interlocutor cai num silêncio sepulcral. As veias do pescoço vão inchando como em certos filmes de vampirismo. O sangue concentra-se todo na cabeça. Os olhos, vermelhos e irados, saem das órbitas. A boca espuma. Os queixos tremem. Alguns levam a mão ao braço esquerdo e pedem uma ambulância. Deus do céu, eu já perdi a conta dos infartos, ou das ameaças de infarto, que a minha perversidade provocou em São Paulo e no Rio. Diogo Mainardi não é um colunista. É uma assombração.

Curioso. Irônico. Paradoxal. As mesmas pessoas que desmaiam na minha frente com o nome de Mainardi não desmaiam com uma elite política corrupta que usa dinheiro público tradução: dinheiro dos brasileiros para suas negociatas. O mal não está em quem rouba. Está naqueles que denunciam o roubo. Em condições normais, um país estaria grato aos jornalistas que vigiam e criticam o poder. Mas o Brasil não é um país normal. Aliás, Portugal também não é e pressinto aqui uma cultura histórica comum: quando um colunista abre a boca para criticar o governo, ele não critica o governo. Ele é um demente, um invejoso, um fracassado. E, em caso de discórdia, os leitores, para não falar dos colegas de ofício, não estão dispostos a contra-argumentar. Mas a censurar. O ideal não é discutir. É silenciar. Na impossibilidade de fuzilar. Curiosas mentalidades.

Às vezes pergunto se vale a pena continuar. Como Diogo Mainardi pergunta em seu último livro, "Lula é Minha Anta" (Record, 240 págs.), relato da sua odisséia anti-lulista. No livro, conta Mainardi que dedicou cerca de 5 mil horas a Lula (antes do mensalão começar). Cinco mil. Uma vida. Uma barbaridade. E quando o colunista acredita que finalmente se libertou do presidente, o mensalão estoura e Lula, como nos filmes de Coppola, volta a arrastá-lo para a velha dança. Mais 5 mil horas. Mais dez. Mais quinze.

Eu não me perdoaria. Sério. Nas milhares de horas que Mainardi perdeu com Lula, teria sido possível ler todo o Balzac, todo o Flaubert. Mas também teria sido possível viajar. Dormir. Namorar. Vadiar. Milhares horas com Lula e o PT não inspiram indignação. Inspiram compaixão.

Compaixão e irrisão. Várias vezes disse a Diogo Mainardi que ele deveria regressar à ficção. Basta ler os quatro livros publicados até ao momento ("Malthus", "Arquipélago", "Polígono das Secas", "Contra o Brasil") para entender o lugar singular do autor na prosa brasileira contemporânea. Ao resgatar a tradição satírica européia para a língua lusa, Mainardi faz o que Millôr Fernandes e Ivan Lessa fizeram antes dele: limpa o pó à gramática e confere uma vitalidade ao texto que é mortal para denunciar o ridículo da condição humana. Mas a resposta dele é sempre a mesma: "E quem paga as minhas contas?" Na conversa que tivemos, e que reproduzo embaixo, a pergunta é repetida. A resposta também.

Erro meu. "Lula é Minha Anta" não é apenas o resumo da batalha hilária de Diogo Mainardi para derrubar Lula. É também o retrato político de um país que ganha contornos grotescos, muito acima de qualquer ficção: na política, no jornalismo, no mundo empresarial; e nas relações promíscuas e até mafiosas que se instalam entre esses vários mundos. E, quando assim é, não existe grande espaço para prosa imaginativa. Seria inútil. Redundante. Em Inglaterra, onde a vida é previsível e civilizada (ou previsível porque civilizada), o "non sense" transferiu-se da vida para a literatura. De Jonathan Swift a Laurence Sterne, de Evelyn Waugh e Kingsley Amis, a sátira é abundante porque funciona como contraste. Mas quando a realidade já é surreal, é a realidade que se transforma em ficção. Quem precisa de livros quando basta olhar pela janela?

Mainardi olhou pela janela. Descreveu a paisagem. Mas falhou no essencial: em 2006, Lula era reeleito, ou seja, "absolvido pelas urnas", como dizem seus acólitos. Num dos melhores textos do livro, Mainardi compara-se ao Coiote do desenho animado, que persegue obsessivamente o Papa-Léguas para ser derrotado no final. Uma pena? Para o Brasil, com certeza. Para os leitores, longe disso. "Lula é Minha Anta" ficará como testemunho de uma época e exercício literário pleno de violência sarcástica. E, além disso, ninguém assiste ao desenho animado para ver o Papa-Léguas.

Quer ler a entrevista? Clique aqui

domingo, 24 de fevereiro de 2008

A síndrome do movimento estudantil

Recebi hoje de manhã um e-mail de uma colega de curso pedindo ajuda na divulgação de uma nota enviada à PUC-SP pela Rede Paulista pela Democratização da Comunicação e da Cultura, na qual a entidade se posiciona, com ou sem a devida propriedade, a respeito do processo encaminhado pela direção da PUC-SP aos oito estudantes supostamente responsáveis pela invasão da sede da reitoria da universidade ocorrida em novembro de 2007. Como não sou de recusar pedidos gentis e embora não concorde nada nada com o conteúdo da carta, acatarei solicitamente ao pedido de minha caríssima colega, mas com alguns pareceres, digamos.

Eis a nota:

Contra a repressão e criminalização dos estudantes da PUC-SP

Nós, movimentos sociais e organizações da sociedade civil que integram a Rede Paulista pela Democratização da Comunicação e da Cultura, vimos através desta manifestar nosso repúdio à atitude da direção da PUC-SP contra uma pequena parcela dos cerca de 200 estudantes que ocuparam o prédio da reitoria em novembro passado.

A ação dos alunos resultou na instalação de um processo sindicante, concluído em dezembro, e foi base para a abertura de um processo administrativo contra nove estudantes, que pode acarretar inclusive a expulsão dos processados. Além disso, três dos nove incluídos sofrem um processo cível relacionado ao ato de reintegração de posse e receberam intimações para um depoimento à polícia.

Antes mesmo da conclusão do processo administrativo, no entanto, os estudantes citados já sofreram punições por parte da reitoria. Os formandos não poderão colar grau, os inadimplentes tiveram suas negociações vetadas e os bolsistas estão ameaçados de perder o auxílio da faculdade. Além disso, a comissão responsável pelo processo indeferiu o pedido de nova data para a oitiva dos alunos, desconsiderando o depoimento dos acusados.

O motivo da ação dos estudantes no ano passado – o posicionamento contrário ao Redesenho Institucional da universidade – é legítimo e não pode ser tratado de forma criminosa. O direito à participação ampla e democrática de toda a comunidade universitária em um processo que prevê mudanças profundas na instituição é o mínimo que se espera de uma universidade que baseia seu funcionamento em princípios democráticos. Da mesma forma, a liberdade de expressão e de manifestação daqueles que são contrários a determinada proposta é um direito fundamental que não lhes pode ser negado.

Neste sentido, indignamo-nos com a atitude desta direção que, além de ter, no ano passado, requisitado força policial para solucionar um problema político, demonstra agora pressa em punir os estudantes e utiliza mecanismos condenáveis para intimidar e impedir sua manifestação.

Esperamos que a democracia e a garantia dos direitos humanos, que durante tanto tempo foram bandeiras não apenas defendidas mas praticadas por esta universidade, passem a nortear não apenas o discurso mas também as ações da Reitoria da PUC-SP.


São Paulo, 22 de fevereiro de 2008.

Rede Paulista pela Democratização da Comunicação e da Cultura
Abraço São Paulo • Aliança Internacional de Jornalistas - Brasil • Artigo 19 • Associação Cantareira • Ativismos Midiático • Centro Acadêmico Benevides Paixão - PUC/SP • Centro Acadêmico Vladmir Herzog - Cásper Líbero • Centro Acadêmico Florestan Fernandes - Escola de Sociologia e Política • Camará Comunicação e Educação Popular • Ciranda da Informação Independente • Cives • Conselho Regional de Psicologia • Departamento de Jornalismo da PUC • Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social - Enecos • GENS Serviços Educacionais • Intervozes - Coletivo Brasil de Comunicação Social • Instituto Paulo Freire • Instituto Pensarte • Jamac – Jardim Míriam Arte Clube • Jornal Brasil de Fato • Jornal Contraponto • Marcha Mundial das Mulheres • Oficina da Praxis • Projeto Cala-boca Já Morreu • Movimento Palestina para Tod@s • Projeto Revista Viração.


O verdadeiro revolucionário é movido por grandes sentimentos de amor
Che Guevara

Enquanto houver injustiça e miséria, todo homem deve ser um revoltado
Albert Camus


Longe de contestar o direito da "Rede Paulista pela Democratização da Comunicação e da Cultura" de se posicionar sobre o que bem entender, mas não entendo muito a relação que uma entidade que luta pela pitoresca democratização da Comunicação tem com assuntos administrativos da PUC. Sendo assim, é com o mesmo direito de fala que tem a entidade e no mesmo espírito democrático de comunicação que a internet nos oferece, que eu evoco ao direito de livre expressão para tecer alguns comentários a cerca do assunto.

Vamos começar, então, falando um pouco sobre legitimidade. Concordo que é legítimo posicionar-se contra qualquer atitude que uma instituição privada de ensino venha tomar, assim como é legítimo se posicionar contra qualquer coisa. Mas o que é tratado de “forma criminosa” não é o posicionamento contrário dos estudantes, como alega a nota, e sim o fato deles ocuparem as instalações da referida instituição, privando sua direção da utilização de seu espaço de trabalho. Portanto, assim como é, para eles, legítimo ocupar as dependências do setor administrativo da PUC, ou de qualquer outra universidade, é totalmente legítimo que a reitoria exija seu direito de reintegração de posse, acionando o aparelho de repressão legítimo do Estado que é legitimamente a polícia.

Um fato que a nota expõe muito obscuramente, inconscientemente ou não, é o motivo das manifestações dos estudantes. Este motivo seria o projeto de “Redesenho Institucional” da PUC, que visa superar os problemas financeiros pelos quais a instituição vem passando nos últimos anos. Ignoro as fontes de financiamento da PUC. Mas se elas são majoritariamente oriundas do pagamento das mensalidades, nada mais racional do que tomar medidas como a de ajustar a situação dos alunos inadimplentes, expulsando-os ou renegociando suas dívidas, fechar os curso deficitários, demitir servidores, cortar o número de bolsas e outras ações que melhorem sua situação financeira, para que ela possa sobreviver. Inclusive lançar mão de ações indiretas como a de processar e expulsar estudantes que desconfiguram a imagem da instituição.

É assim que funciona e que deve funcionar o sistema: ao mesmo tempo que as empresas adequam seus serviços para atender as necessidades e satisfazer o público consumidor, o consumidor tem que se adequar às regras da empresa que contratou. Outra: se você quiser obter os serviços de uma organização privada, você tem que pagar por ele. Empresas privadas não têm como sobreviver em regime deficitário, ao contrário das empresas públicas, que sanam os déficites com recursos remanejados de outras fontes. Nada mais óbvio.

Os professores contrários ao "redesenho institucional" da PUC fazem isso para defender seus postos de trabalho, é claro. E os estudantes, para defender suas bolsas e seu fictício direito de estudar sem pagar.

Vou concluir com uma visão bem grosseira da história, para clarear um pouco mais as coisas: todos aí não passam de um bando de comunistas aproveitadores. Todos, inclusive esse pessoal da "Rede Paulista pela Democratização da Comunicação e da Cultura", que repudia a atitude da direção a PUC por afinidade ideológica e por solidariedade aos tais estudantes.

Esses estudantes sofrem da atávica síndrome do movimento estudantil da ditadura, que hoje se tornou paranóia: sua existência só faz sentido, só são movimento estudantil, quando têm em vista o autorismo ditatorial praticado pelos detentores do "poder" que têm que, por obrigação, combater, já que, segundo sua visão pobre e deturpada, os detentores do "poder" visam eliminar a liberdade e a Democracia para se perpetuarem como classe dominante. Isso quando não estão pregando, de quebra, a superação do sistema capitalista.

Essa visão se alastrou por todas as universidades do país, públicas e privadas, e se manifesta em focos compostos por uma minoria chata e barulhenta, que acaba tendo seu discurso apelativo e sentimentalesco incorporado às representações da maioria, que o assimila como numa lavagem cerebral. É como uma doença, que deve urgentemente ser tratada.

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Esta entrevista com Rodrigo Tufão, um dos estudantes da PUC-SP processados pela reitoria, membro da Gestão Primavera de Praga do CACS (Centro Acadêmico de Ciências Sociais), publicada num site intitulado “Liga Estratégica Revolucionária – Quarta Internacional” mostra bem o caráter dos invasores “reprimidos” pela reitoria da PUC-SP: http://www.ler-qi.org/spip.php?article893.

Outro texto, esse publicado no site “Causa Operária Online”, também pode ser bastante esclarecedor: http://www.pco.org.br/conoticias/ler_materia.php?mat=1462

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

A Indignação Que Não Vejo Cá

De ontem para hoje conversei pelo orkut com dois estonianos e uma ucraniana sobre a situação política do Brasil. Comentei que entre os partidos que aqui as pessoas chamam de direita, um deles é social democrata. Logo em seguida veio a pergunta: “Você pode me explicar isso? Qual é o partido mais a esquerda aí então?”. Nessa hora eu agradeci por não estar conversando com brasileiros. Ahh!... a pura, simples e revigorante sanidade política, como ela faz falta. Enquanto isso, aqui nesse país, sou chamado de doido por dizer o óbvio: no Brasil não há partidos que representem uma verdadeira direita.

Respondi mostrando a seguinte lista com o nome de todos os partidos brasileiros:

Partidos trabalhistas/socialistas/comunistas:
PDT - Partido Democrático Trabalhista
PRTB - Partido Renovador Trabalhista
PSTU - Partido Social Trabalhista Unificado
PT - Partido dos Trabalhadores
PTB - Partido Trabalhista Brasileiro
PTC - Partido Trabalhista Cristão
PTdoB - Partido Trabalhista do Brasil
PTN - Partido Trabalhista Nacional
PCO - Partido da Causa Operária
PCdoB - Partido Comunista do Brasil
PSB - Partido Socialista Brasileiro
P-SOL - Partido Socialismo e Liberdade
PCB - Partido Comunista Brasileiro
PPS - Partido Popular Socialista

Partidos de “direita”:
PSDB - Partido da Social Democracia Brasileiro
DEM - Democratas

O resto:
PHS - Partido Humanista da Solidariedade
PMDB - Partido do Movimento Democrático Brasileiro
PMN - Partido da Mobilização Nacional
PP - Partido Progressista
PR - Partido da República
PRB - Partido Republicano Brasileiro
PRP - Partido Republicano Progressista
PSC - Partido Social Cristão
PSDC - Partido Social Democrata Cristão
PSL - Partido Social Liberal
PV - Partido Verde

Só de olhar isso, qualquer guri de colégio (que não seja brasileiro, claro) percebe que tem algo de errado com a democracia nesse país. O primeiro fato assustador é que dos 27 partidos ativos brasileiros, mais da metade (14) parece ter bases ideologícas de extrema esquerda. O segundo é que os dois grandes e poderosos partidos de direita do Brasil têm nome de partidos de esquerda. Se esse guri pudesse ir só um pouquinho além e lesse os estatutos desses dois partidos, saberia também que o PSDB tem em sua idéia base pouco do que pode ser chamado de uma ideologia direitista, mas muito do que constitui uma esquerda em qualquer lugar do mundo. Se pudesse saber também que o próprio DEM declarou ser de centro, e inspirado no Democrats americano, ele jamais diria que se trata de um partido de direita. A conclusão do guri seria que no Brasil todos os partidos são de esquerda, variando apenas em grau.

“A noção de que os democrats americanos são de direita é incrivelmente alienígena para mim! Que situação ruim vocês devem ter se algo como eles é a direita!”.

Aí está, a indignação que não vejo no brasileiro. Oh céus! Nesse país há imbecil até para dizer que o PT é de direita. Quando digo por aí que PSDB e DEM não representam verdadeiramente uma direita, as pessoas riem, olham para mim incrédulas. Eu explico com toda a paciência o motivo pelo qual digo isso. Mas sempre a resposta é algo do tipo: “eles são de direita sim, mas você acha que eles próprios vão dizer isso?”.

Como se fosse crime. Puta merda.

Num próximo post farei uma ponte entre este texto e o anterior para explicar melhor essa situação.

PS.: Já que falei em "verdadeira direita", explico. Conservadorismo. Essa é a acepção clássica do conflito iniciado 4 séculos atrás. O conservadorismo e apenas o conservadorismo pode representar uma verdadeira direita. Economia não é fator determinante para classificar qualquer partido entre esquerda ou direita.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Uma Teoria sobre o Socialismo e o Capitalismo

Havia algum tempo que Klauber Pires falava dessa tradução que vinha fazendo. Vale a pena baixar o livro e conferir. Apesar de eu próprio não ter ainda lido: indico a indicação.


Post original por: Klauber Pires

Uma Grande Novidade:
Temos a honra de apresentar aos leitores a excelente obra "Uma Teoria sobre o Socialismo e o Capitalismo" (A Theory of Socialism and Capitalism), do filósofo Hans-Hermann Hoppe, que acaba de ter sido por mim traduzida para a língua portuguesa, com a permissão expressa do autor.

Ainda pouco conhecido em nossa língua, o professor Hoppe é um dos mais ilustres representantes atuais do Instituto Ludwig von Mises, e seu livro, que o disponibilizamos na íntegra gratuitamente aos leitores, além de possuir uma leitura agradável, assume com notável didática e clareza tanto a tarefa de rechaçar analiticamente a doutrina socialista, com seus mitos, cacoetes e suas metamorfoses, quanto completamenta suas demonstrações apriorísticas com ilustrações empíricas inquestionáveis verificadas ao longo da história mundial.


O link para download está disponível em:
http://libertatum.blogspot.com/

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Da informação jornalística como um direito do cidadão


No ano 2000, o website do Observatório da Imprensa completou quatro anos de existência. Para comemorar a data a entidade encaminhou a alguns jornalistas a seguinte questão:

A informação é um direito do cidadão e a imprensa, embora negócio privado, é um serviço público (sic). A sociedade brasileira tem demonstrado maior ou menor interesse na fiscalização de sua imprensa? Por que razão?

A resposta mais interessante, na minha opinião, foi a do boliviano Hugo Estenssoro, que reproduzo agora:

"Acho errado considerar a informação jornalística um 'direito do cidadão'. Se isso fosse verdade, o acesso à informação jornalística deveria ser universal e gratuito, isto é, uma das funções do Estado, que teria a obrigação de criar e manter jornais e estações de rádio e televisão, da mesma maneira que se ocupa, por exemplo, da segurança pública. Quando isso acontece (e tem acontecido) a primeira conseqüência é que o cidadão deixa de ser informado sobre aquilo que realmente interessa. Só aqueles com esperanças de um emprego burocrático, mole e vitalício, acreditam que o Estado é e deve ser o principal fornecedor de informação. Ou então os donos de meios de comunicação que vêem na dependência do Estado uma maneira fácil e impune de enriquecer-se às custas do contribuinte.

Informação é uma das formas do poder. E o direito à informação é uma conquista, uma vitória do cidadão sobre os poderes públicos e privados. Saber que uma atriz famosa teve um filho ou que um esportista célebre bateu no garçom de um restaurante também é informação, mas ela nos interessa apenas como indivíduos mais ou menos bisbilhoteiros. Como cidadãos o que nos interessa é saber se os nossos governantes são incompetentes ou corruptos, ou se os poderosos deste mundo usam meios ilegais ou abusivos. Ora, nem os governantes nem os poderosos vão nos facilitar essa informação, que pode ser vital para nosso bem-estar e mesmo para a nossa sobrevivência. Nós é que precisamos arrancar-lhes essas preciosas informações. Mas essa operação, bem examinada, é mais um dever (para conosco) do que um direito. Tudo o que podemos exigir do Estado é a liberdade para exercer esse dever.

Daí a contradição interna do jornalismo numa sociedade democrática, onde a informação é fornecida não pelo Estado mas por empresas privadas. Estas, por definição, são de caráter lucrativo. Mesmo aquelas 'sem fins lucrativos'. De outra maneira, quem paga os custos, incluídos os salários dos jornalistas? Existem casos extraordinários, como Karl Kraus na Viena de início do século, ou meu amigo e mestre I.F. Stone, na Washington da Guerra Fria, que conseguem criar publicações privadas que chegam a ter um valor crucial.

Ambos os casos demonstram a verdade do aforismo de A.J. Liebling: só tem liberdade de imprensa quem é dono de uma. Mas as circunstâncias de ambos eram especiais. Embora Die Fackel tenha conseguido autofinanciar-se desde o segundo número, o primeiro não teria sido possível sem a fortuna do pai de Kraus, e a sua independência ficou assegurada quando Kraus herdou a fortuna familiar. A façanha de Stone foi maior, pois conseguiu uma base de assinantes para a sua I.F. Stone’s Newsletter graças à importância vital das informações que fornecia, inencontráveis em nenhuma outra publicação. Porém, além da excepcionalidade pessoal de Kraus e Stone, há o fato de que as suas eram publicações de elite. No instante em que vinculamos as palavras 'informação' e 'cidadão' começamos a falar de informação de massa.

Os custos (sem nunca esquecer os salários dos jornalistas) dos meios de comunicação de massa são enormes. Não estou muito seguro que novas tecnologias, como a internet, vão mudar o panorama. As empresas 'ponto.com' têm como principal caraterística, até agora, a de perder somas colossais de dinheiro. A maior parte do enorme capital que recebem de especuladores e ingênuos é usado na promoção do site, o que é a única maneira de torná-lo um veículo de massas. Ainda precisamos ver o que acontecerá quando o conseguirem. Ademais, num mercado quase ilimitado e de acesso barato (e supondo que continuará assim), o fator decisivo será a qualidade da informação, isto é, a qualidade dos jornalistas. Os salários desmesurados que estão atraindo os bons jornalistas à internet poderiam chegar a ser, junto com as gigantescas verbas promocionais, o equivalente dos atuais custos de produção da mídia tradicional. Em outras palavras, se ficar o bicho come etc.

A partir dessas premisas – a necessidade das empresas privadas na difusão de informação, e os altos custos da comunicação de massa – fica em evidência a verdade de que cada povo tem a imprensa que merece. Acreditar que a informação é um 'serviço público' a que se tem 'direito' significa aceitar que os políticos e seus apaniguados decidam quais as informações a que devemos ter acesso. Ao mesmo tempo, pedir às empresas de comunicações privadas que realizem um serviço público é, além de tentar tirar água das pedras, abusivo. Por que não pedir 'serviços públicos' a pedreiros, taxistas, arquitetos ou mesmo – Deus nos perdoe – a jornalistas? Já foi feito, e conhecemos as conseqüências. A realidade é que a imprensa, ou a indústria da informação, reflete como um espelho a sociedade que serve. Isto é, a imprensa só é boa quando o público assim o exige. Por exemplo, por que a imprensa americana (considerando seus fabulosos recursos econômicos e humanos) é tão ruim? Porque seu público, o cidadão americano, se sente política e economicamente seguro. Em épocas de crise exige mais. Durante a guerra do Vietnã, quando sentiu que seu governo o estava enganando, exigiu mais e terminou por obtê-lo.

É claro que nem todos os países gozam da liberdade e prosperidade dos Estados Unidos. Países como o Brasil ainda vêem, e com razão, que o Estado nem sempre está a seu serviço, e que os poderosos dispõem de privilégios injustos. Daí que muitos exijam, ou tentem exigir, que a mídia seja instrumento de suas reivindicações. A grande imprensa tradicional, jornais e revistas, tem refletido razoavelmente (na minha opinião) essas exigências, apesar de seus evidentes defeitos – que vão da ignorância à venalidade, sem nunca deixar de passar pela estupidez. Mas seu alcance é pequeno. Não tem circulação nacional, é cara, e tem poucos efeitos num país semi-analfabeto. O brasileiro comum recebe suas informações do rádio e da televisão. Estes dependem do Estado na medida em que gozam de privilégios (as freqüências) distribuídos pelo Estado. Isso significa que em épocas de crise escolhem servir o Estado – ou aos donos provisórios do Estado – e não o público. Pessoalmente acredito que nem sequer as novas tecnologias que diminuem os custos e multiplicam as freqüências disponíveis mudarão essa situação, como indicam os precedentes dos Estados Unidos e Europa.

Minhas razões são históricas. Historicamente, uma imprensa ou indústria da informação livre e atuante é o resultado – e não o veículo – de um Estado de Direito numa sociedade democrática. Sem exceção alguma: é só depois da chegada do liberalismo burguês e capitalista que surge a imprensa como instrumento da sociedade civil (no sentido original do termo: o cidadão contra os poderes, e não como grupos de pressão de interesses particularistas). O problema do Brasil é que é uma sociedade em transição, em que elementos arcaicos subsistem e se justapõem a elementos de uma modernidade que não termina de chegar, e que muitos – por boas e más razões – prefeririam que não chegasse nunca. Assim, existem veículos de informação altamente sofisticados que não contam com um público de massa que os justifiquem. Daí que, forçosamente, terminem sendo 'elitistas'. No melhor dos casos. Porque a alternativa costuma ser mal-gastar seus recursos num populismo abjeto. Aclaro para os patrioteiros que o Brasil está em excelente companhia: acontece a mesma coisa em países com uma história tão gloriosa como Itália ou Espanha. Paciência. E a trabalhar."

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